O recado na prova de Cálculo
2026-06-25 · 3 min

O professor entregou minha prova de Cálculo, em que tirei 10, com um recado na última página. Mas não era um elogio.
Dizia, em resumo, que a engenharia deveria ser vivida com intuição e não com decoreba. Ele havia percebido que eu terminei a prova rápido demais. Claramente tinha memorizado tudo.
Ele estava certo sobre o que viu, e errado sobre o que significava.
No IME, rodeado de alunos super inteligentes, eu sabia uma coisa sobre mim mesmo: eu não era o mais profundo da sala. Nunca seria. Minha cabeça não funciona pela abstração pura. Funciona pelo contato, pela conversa, pelo concreto.
Então não tentei virar outra pessoa.
Fui em outras turmas pedir ajuda. Busquei quem já tinha feito a matéria. Transformei o estudo em algo que eu conseguia visualizar, tocar, entender pelo exemplo. Fiz o famoso Apostol de ponta a ponta. Refiz. Fiz de novo. Até que os padrões viraram intuição.
O que o professor chamou de decoreba era, na verdade, a única forma de aprendizado que funciona para mim, levada ao limite.
O que aparece sob pressão
Essa semana estava lendo A arte de conhecer a si mesmo, de Schopenhauer, e ele dizia que o autoconhecimento não vem da introspecção. Vem de observar o que você faz quando está sob pressão real.
Naquele período de prova no IME, eu estava sob pressão máxima.
E o que apareceu ali foi o meu estilo de verdade: alguém que constrói redes, busca padrões, transforma abstrato em concreto e encontra um caminho que não é o esperado, mas que funciona para si.
O professor viu um aluno que burlou o método. O que estava acontecendo era outra coisa: alguém aprendendo a trabalhar com quem ele é, não contra.
Essa é a arte que Schopenhauer chama de conhecer a si mesmo. E ela começa muito antes de qualquer cargo, de qualquer título.
Começa quando você para de fingir que funciona de um jeito que não é o seu.
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